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Mais frases e pensamentos de Eucanaã Ferraz

“Sob a luz feroz do teu rosto Amar um leão usa-se pouco, porque não pode afagá-lo o nosso desejo de afagá-lo, como tantas vezes cão ou gato aceitam-nos a mão a deslizar sobre seu pêlo; amar um leão não se devia, agora que já não somos divinos, quando a flauta que tudo encantaria, gentes animais pedras, nós a quebramos contra a ventania; amar um leão é só distância: tê-lo ao lado, não poder beijá-lo, o deserto que habita em torno dele; era mais certo amar um barco, era mais fácil amar um cavalo; amar um leão é não poder amá-lo; e nada que façamos adoça o que nele nos ameaça se amar um leão nos acontece: à visão de nosso coração ofertado, tudo nele se eriça, seu desprezo cresce; amar um leão, se nos matasse; se nos matasse o leão que amamos seria a dor maior, mais que esperada: presas patas fúria cravadas em nossa carne; mas o leão, que amamos, não nos mata.”

“Talvez você não seja mais que isto: alguém, de costas, tenta acender um cigarro ao vento. E há este oceano abstrato que vem bater em nosso quarto. É preciso cuidado, não são poucas e são altas suas ondas; escuto, mas quem compreenderia a valsa monocórdia dos afogados, feita de uma boca intraduzível? O vento dispersa o que eu diria, não chego a você, a seus ouvidos; assim também minha mão que desmorona antes de alcançar seu rosto onde do que entre nós alguma vez foi nítido embaraçam-se os fios; o vento derrama seus olhos para longe, dessalga e seca nos meus a hipótese da queixa; vento da noite, que espalha suas pedras negras no imenso metro entre nós. Talvez o mundo mais perfeito seja apenas isto: você, enfim, acende seu cigarro.”

“Hoje te parecem desoladas todas as avenidas. Podes senti-las em tuas roupas que cheiram ainda aos corredores que se lançavam apressados nos portões de partida. Tudo foi claro e tudo foi absurdo, como agora no poema, quando rimas e melancolia brotam ridículas, pretensamente belas como orquídeas desmedidas. Amanhã, porém, tudo estará limpo e seco e reto. Cicatrizadas as feridas, restarão contra o céu muito branco da memória não mais que a silhueta precisa — pernas braços cabelos — daqueles pinheiros, tristíssimos, e uma palavra sem nexo: Curitiba, Curitiba.”

“⁠O DOIDO Diziam, verdade ou não, que fora rico e são e que a despeito dos bens que possuíra acabara endividado, falido e torto. Talvez por isso, embora miserável, a cabeça reta, o andar de quem governa e pisa terra extensa e sua em perambular sob o sol absoluto, absorvido sabe-se lá por que delírios. Absorvido sabe-se lá por que delírios, insultava o vento e o vazio numa agitação de cabelos e palavras e era comum vê-lo penteando com seus dedos encardidos a água das praias, como se província sua, como sua líquida mulher ou filha. Viveu assim, entre feridas e piolhos, até que desceu a noite e uma pedra veio buscá-lo.”