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Mais frases e pensamentos de José Juan Tablada

“Que venha Junho! Pode entrar! Deixarei a porta escancarada pra cessar esse sentimento de saudade mal assombrada que Maio me deixou. Que venha e sente-se sem se preocupar. Que entre sem se importar com a hora de partir. Que chegue sem bater a porta, de mansinho. E que se caso chegar a hora de ir…. Vá, sem bater a porta e sem deixar a sensação de dever não cumprido, de sonhos incompletos, de passos mal feitos. Sem pedaços de infelicidade em baixo do tapete e metade de sorrisos presos na geladeira. Que venha Junho para varrer tudo que ficou sem pretensão, espanar tudo o que impregnou sem permissão, tudo o que grudou, ofuscou os meus sorrisos e me fez esquecer de notar a luz do dia, ou passar despercebido por mim mesmo. Que venha Junho remover toda poeira de quem passou por aqui e não deixou número de retorno, de tudo que passou por aqui sem deixar rastro. Quer saber? Que Junho sirva pra lavar tudo de infiel que conseguiu se aproximar de mim. Que venha para me trazer bons ventos, bom tempo, boa vista, e claro, que me faça sentir-se suficientemente mais completo. Que me faça notar mais a minha presença, que inclusive, me permita notar a luz do dia. Que me traga os detalhes que Maio me levou. Que me traga a voz da Elis Regina. Que me traga presença divina. Que me traga chocolates sem controle e que recue a diabetes. Que carregue as mazelas, os trapos, os trecos, os traços sem ponto de equilíbrio; o caminho sem direção. Que venha Junho, tomar um café a qualquer hora, acompanhar um vinho qualquer dia, desapegar as ilusões que Maio me pregou. Que venha Junho me trazer novos dias, e tempo. Muito tempo pra fazer valer a pena tudo o que perdeu valor por falta de tempo em Maio. Que venha pra me doar tempo suficiente para concluir e continuar o que Maio deixou. Que me traga mais abraços demorados e menos sorrisos passageiros. Mais livros, mais música, mais amor. Que me traga um bom astral pro meu signo. Que venha logo, Junho! Me ensinar o que ainda não aprendi. O que, com o Senhor Maio não fui capaz de aprender.”

“A gente vai indo, indo, indo…. Até chegar em um certo ponto sem perceber. A inesperada hora. O momento em que só resta se afogar um pouquinho e pagar o preço por ter mergulhado demais, por ter nadado demais até o fundo. Por ter descoberto a verdade dentro da escuridão e a real profundeza do outro. Por ter conhecido as estranhezas sem ter tanto tempo pra voltar a superfície. Sem conseguir chegar a tempo até a realidade. Amar tem um preço (que não é nada barato) caso a correnteza te leve para um destino não muito agradável, ou pra uma ilha deserta e te tire o amado pra quem tanto você remou a procura de um amor reciproco. Quem se dispõe mergulhar por completo, se dispõe também a deixar os bolsos cheios de areia e voltar pra casa sem pérola na concha, a ficar apenas com um barco furado, com a rede rasgada, perder os remos e desaprender a nadar. - Ainda bem, que é só até o momento em que a maré abaixa e as ondas maiores recuam.”

“Não quero me largar no meio do palco. Não quero ser só o som de fundo que sai de cena na primeira tragédia do espetáculo. Não quero estar aqui por estar, receber aplausos por ser só mais um que tentou fazer a diferença e que no final das contas, ninguém lembrou das minhas palavras, inclusive você. Escolhi ser quem fecha as cortinas, sem dor, sem drama, sem receber você da plateia. Sem nenhuma semelhança de desconforto aparente. Escolhi ser quem acaba com a agonia. Quem te deixou um adeus escuro pela tua falta de capacidade de não me perceber bem antes de me perder. Já basta ter esperado você todos os dias. Já basta querer te encontrar sem saber se te perdi ou se você escorregou das minhas mãos de propósito. Não quero viver sem ter nada o que pedir e ganhar. Sem ter nada para receber e simplesmente perder.”

“Eu que sempre pensei fazer parte do grupo dos mamíferos mais fortes - quero dizer, apenas em conceito de sentimento - me encontro perdido na vida, afundado nas minhas próprias incertezas, sofrendo dramas que não são meus e cavando meu próprio buraco. Os mesmos assuntos, as mesmas perguntas, as inevitáveis respostas. Dói falar tudo o que machuca. E é por isso que prefiro guardar (na maioria das vezes). Sinto como é prender a curiosidade de bisbilhotar o perfil dele no Facebook pra ver se surgiu alguma foto nova com sorriso no rosto, alguma frase do Caio ou algum trecho citado por Chico Buarque que demonstre serenidade, felicidade e sensação de que está tranquilo, de que tudo já se concertou na vida dele e de que o ontem já não faz tanto efeito. Que a tempestade que pensei, pra ele apenas foi um chuvisco que beneficiou o que estava sem cor e passou pra deixar o dia com cheiro de terra molhada. Um dia a gente aprende, aceita a dor de portas abertas, cumprimenta o fim e ainda o convida pra tomar um Quinta do Morgado numa sexta-feira a noite.”

“Eram três da matina de um domingo qualquer. Tinha marca de solidão se arrastando pelo chão. Tinha comida estragada pro jantar. Tinha digitais nos copos, tapete usado e lençol manchado. Tinha cor de pele bronzeada no banheiro e não tinha você. - É mágico, o momento em que a gente percebe que o outro não nos quer mais. A gente acorda, se sente livre. É claro que não se afoga um sentimento do dia para a noite. Mas a gente tenta preencher aqueles espaços com coisas novas. Tudo serve para animar, renovar, encher a casa e a vida. Preencher o tempo, costurar e remendar nossas feridas. É claro que vai doer, é claro que a gente vai sentir. É claro que o sentimento ainda vai latejar por um tempo. Toda ferida mesmo com um bom remédio deixa marcas. O remédio aqui, é o sinônimo do amor, mas o contrário de você. Só serve para doer menos, magoar menos, aliviar melhor algumas dores, criar casquinha do cru que fica. A gente supera a partir do momento em que decide ter o que merece. Sem fantasias.”

“Quero menos pessoas do tipo vodca em minha vida. Menos quem acaba antes mesmo da hora, quem vai embora antes mesmo da partida. Menos quem embriaga e deixa a gente voltar sozinho, ou seguir sozinho. Certo que seguimos os nossos caminhos e não precisamos de ninguém pra isso, mas eu quero mesmo é menos desejo, menos promessas e mais matança de cede. Eu quero mesmo gente do tipo água. Que quando desce faz faxina. Que quando entra sacia. Que quando fica, afasta o calor do inferno que ficou outro dia. Gente que chega e faz as coisas florescerem. Quero mais quem passa e deixa a marquinha molhada, que refresca os momentos mais secos, que espanta o calor da agonia, que alivia o rachado do peito e desata o nó da garganta. Quero mais quem mata a sede da saudade. - Garçom suspenda a vodca! Uma água, por favor!”