Mais frases de Alfonsina Storni!

Tu que nunca serás Sábado foi caprichoso o beijo dado, Capricho de varão, audaz e fino Mas foi doce o capricho masculino A este meu coração, lobinho alado. Não é que creia, não creio, se inclinado sobre minhas mãos te senti divino E me embriaguei, compreendo que este vinho Não é para mim, mas jogo e roda o dado... Eu sou a mulher que vive alerta, Tu o tremendo varão que se desperta E é uma torrente que se desvanece no rio E mais se encrespa enquanto corre e poda. Ah, resisto, mas me tens toda, Tu, que nunca serás de todo meu.

Por Alfonsina Storni

Sou suave e triste se idolatro, posso abaixar o céu até minha mão quando a alma do outro à alma minha enredo. Pena alguma não acharás mais branda. Nenhuma como eu as mãos beija, nem se acomoda tanto em um sonho, nem convém outro corpo, assim pequeno, uma alma humana de maior ternura. Morro sobre os olhos, se os sinto como pássaros vivos, um momento voar baixo meus dedos brancos. Sei a frase que encanta e que compreende, sei calar quando a lua ascende enorme e vermelha sobre os barrancos.

Por Alfonsina Storni

Palavras a um habitante de Marte Será verdade que existes sobre o vermelho planeta, que, como eu, possuis finas mãos prêensíveis, boca para o riso, coração de poeta, e uma alma administrada pelos nervos sutis? Mas no teu mundo, acaso, se erguem as cidades como sepulcros tristes? As assolou a espada? Já tudo tem sido dito? Com o teu planeta acrescentas a vasta harmonia outra taça vazia? Se fores como um terrestre, que poderia importar-me que o teu sinal de vida desça a visitar-me? Busco uma estirpe nova através da altura. Corpos bonitos, donos do segredo celeste da alegria achada. Mas se o teu não é este, se tudo se repete, cala triste criatura!

Por Alfonsina Storni

Diante do mar Oh, mar, enorme mar, coração feroz de ritmo desigual, coração mau, eu sou mais tenra que esse pobre pau que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas. Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda, eu passei a vida a perdoar, porque entendia, mar, eu me fui dando: "Piedade, piedade para o que mais ofenda". Vulgaridade, vulgaridade que me acossa. Ah, compraram-me a cidade e o homem. Faz-me ter a tua cólera sem nome: já me cansa esta missão de rosa. Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena, falta-me o ar e onde falta fico. Quem me dera não compreender, mas não posso: é a vulgaridade que me envenena. Empobreci porque entender aflige, empobreci porque entender sufoca, abençoada seja a força da rocha! Eu tenho o coração como a espuma. Mar, eu sonhava ser como tu és, além nas tardes em que a minha vida sob as horas cálidas se abria... Ah, eu sonhava ser como tu és. Olha para mim, aqui, pequena, miserável, com toda a dor que me vence, com o sonho todos; mar, dá-me, dá-me o inefável empenho de tornar-me soberba, inacessível. Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade, Ar do mar!... Oh, tempestade! Oh, enfado! Pobre de mim, sou um recife E morro, mar, sucumbo na minha pobreza. E a minha alma é como o mar, é isso, ah, a cidade apodrece-a engana-a; pequena vida que dor provoca, quem me dera libertar-me do seu peso! Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança... A minha vida deve ter sido horrível, deve ter sido uma artéria incontível e é apenas cicatriz que sempre dói.

Por Alfonsina Storni

Luz Andei na vida pergunta fazendo Morrendo de tédio, de tédio morrendo. Riram os homens de meu desvario... É grande a terra! Se riem... eu rio... Escutei palavras; demasiadas palavras! Umas são alegres, outras são macabras. Não pude entende-las; pedi as estrelas Linguagem mais clara, palavras mais belas. As doces estrelas me deram tua vida E encontrei em teus olhos a verdade perdida Oh! teus olhos cheios de verdades tantas, Teus olhos escuros onde o universo meço! Segura de tudo me jogo a teus pés: Descanso e esqueço.

Por Alfonsina Storni