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Dona de quê Se na paisagem onde se projectam Pequenas asas deslumbrantes folhas Nem eu me projectei Se os versos apressados Me nascem sempre urgentes: Trabalhos de permeio refeições Doendo a consciência inusitada Dona de mim nem sou Se sintaxes trocadas O mais das vezes nem minha intenção Se sentidos diversos ocultados Nem do oculto nascem (poética do Hades quem me dera!) Dona de nada senhora nem De mim: imitações de medo Os meus infernos
Felizmente. Somos todos diferentes. Temos todos o nosso espaço próprio de coisinhas próprias, como narizes e manias, bocas, sonhos, olhos que vêem céus em daltonismos próprios. Felizmente. Se não o mundo era uma bola enorme de sabão e nós todos lá dentro a borbulhar, todos iguais em sopro: pequenas explosões de crateras iguais.
Preparem minha filha para a vida Se eu morrer de avião E ficar despegada do meu corpo E for átomo livre lá no céu Que se lembre de mim A minha filha E mais tarde que diga à sua filha Que eu voei lá no céu E fui contentamento deslumbrado Ao ver na sua casa as contas de somar erradas E as batatas no saco esquecidas E íntegras.
Tanto tempo a pensar divino esforço que adormecendo deus sonhou consigo: Sonhou braços e pernas e cabeças, sonhou paisagens de mental pudor conversas calmas com o quase feito E esforçado ficou e exausto se quedou ao ver-se assim traído pela obra criada Só em sonho
Usamos todos a ilusão de fabricar a vida: história, constelações de sons e gestos Usamos todos a suprema glória do amor: por generosidade ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem universos