Mais frases de Alberto de Oliveira!

Horas Mortas Breve momento após comprido dia De incômodos, de penas, de cansaço Inda o corpo a sentir quebrado e lasso, Posso a ti me entregar, doce Poesia. Desta janela aberta, à luz tardia Do luar em cheio a clarear no espaço, Vejo-te vir, ouço-te o leve passo Na transparência azul da noite fria. Chegas. O ósculo teu me vivifica Mas é tão tarde! Rápido flutuas Tornando logo à etérea imensidade; E na mesa em que escrevo apenas fica Sobre o papel – rastro das asas tuas, Um verso, um pensamento, uma saudade.

Por Alberto de Oliveira

A Alma dos Vinte Anos A alma dos meus vinte anos noutro dia Senti volver-me ao peito, e pondo fora A outra, a enferma, que lá dentro mora, Ria em meus lábios, em meus olhos ria. Achava-me ao teu lado então, Luzia, E da idade que tens na mesma aurora; A tudo o que já fui, tornava agora, Tudo o que ora não sou, me renascia. Ressenti da paixão primeira e ardente A febre, ressurgiu-me o amor antigo Com os seus desvarios e com os seus enganos... Mas ah! quando te foste, novamente A alma de hoje tornou a ser comigo, E foi contigo a alma dos meus vinte anos.

Por Alberto de Oliveira

O Ídolo Sobre um trono de mármore sombrio, Em templo escuro, há muito abandonado, Em seu grande silêncio, austero e frio Um ídolo de gesso está sentado. E como à estranha mão, a paz silente Quebrando em torno às funerárias urnas, Ressoa um órgão compassadamente Pelas amplas abóbadas soturnas. Cai fora a noite - mar que se retrata Em outro mar - dois pélagos azuis; Num as ondas - alcíones de prata, No outro os astros - alcíones de luz. E de seu negro mármore no trono O ídolo de gesso está sentado. Assim um coração repousa em sono... Assim meu coração vive fechado.

Por Alberto de Oliveira

Vaso Chinês Estranho mimo aquele vaso! Vi-o, Casualmente, uma vez, de um perfumado Contador sobre o mármor luzidio, Entre um leque e o começo de um bordado. Fino artista chinês, enamorado, Nele pusera o coração doentio Em rubras flores de um sutil lavrado, Na tinta ardente, de um calor sombrio. Mas, talvez por contraste à desventura, Quem o sabe?... de um velho mandarim Também lá estava a singular figura; Que arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a, Sentia um não sei quê com aquele chim De olhos cortados à feição de amêndoa.

Por Alberto de Oliveira

Flor de caverna Fica às vezes em nós um verso a que a ventura Não é dada jamais de ver a luz do dia; Fragmento de expressão de ideia fugidia, Do pélago interior boia na vaga escura. Sós o ouvimos conosco; à meia voz murmura, Vindo-nos da consciência a flux, lá da sombria Profundeza da mente, onde erra e se enfastia, Cantando, a distrair os ócios da clausura. Da alma, qual por janela aberta par e par, Outros livre se vão, voejando cento e cento Ao sol, à vida, à glória e aplausos. Este não. Este aí jaz entaipado, este aí jaz a esperar Morra, volvendo ao nada, – embrião de pensamento Abafado em si mesmo e em sua escuridão.

Por Alberto de Oliveira

Beija-flores Os beija-flores, em festa, Com o sol, com a luz, com os rumores, Saem da verde floresta, Como um punhado de flores. E abrindo as asas formosas, As asas aurifulgentes, Feitas de opalas ardentes Com coloridos de rosas, Os beija-flores, em bando, Boêmios enfeitiçados, Vão como beijos voando Por sobre os virentes prados; Sobem às altas colinas, Descem aos vales formosos, E espraiam-se após ruidosos Pela extensão das campinas. Depois, sussurrando a flux Dos cactos ensanguentados, Bailam nos prismas da luz, De solto pólen dourados. Ah! como a orquídea estremece Ao ver que um deles, mais vivo, Até seu gérmen lascivo Mergulha, interna-se, desce... E não haver uma rosa De tantas, uma açucena, Uma violeta piedosa, Que quando a morte sem pena Um destes seres fulmina, Abra-se em férvido enleio, Como a alma de uma menina, Para guardá-lo no seio!

Por Alberto de Oliveira

Vaso Grego Esta de áureos relevos, trabalhada De divas mãos, brilhante copa, um dia, Já de aos deuses servir como cansada, Vinda do Olimpo, a um novo deus servia. Era o poeta de Teos que a suspendia Então e, ora repleta ora, esvazada, A taça amiga aos dedos seus tinia Toda de roxas pétalas colmada. Depois... Mas o lavor da taça admira, Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas Finas hás de lhe ouvir, canora e doce, Ignota voz, qual se da antiga lira Fosse a encantada música das cordas, Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

Por Alberto de Oliveira