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Nota: Trecho de uma entrevista feita em março de 2009, ao Toada.
o tal total o amor é o tal total que move o mundo a tal totalidade tautológica, o como somos: nossos cromossomos nos quais nunca se pertenceu ao nada: só pertencemos ao tudo total que nos absorve e sorve as nossas águas e as nossas mágoas ficam revoando como se revoltadas ao princípio, àquele principício originário onde era Orfeu, onde era Prometeu, e continua sendo sempre lá o cais, o never more, o nunca mais, o tal do és pó e ao pó retornarás.
bilacmania livre espaço a ave aurora as asas cantando climas céus nuvens agora o sol o vôo a vida o olhar (re)volta tempo alegria de novo
pequenas ocupações da poesia a procura da palavra mágica a contra-senha do apocalipse o codinome do diabo os esconjuros as juras aquém-além palavra amor e outros monstros inomináveis Iracema é anagrama de América termo é anagrama de morte dog, em inglês, é o contrário de deus
conspirações alguma coisa se desprende do meu corpo e voa não cabe na moldura do meu céu. sou náufrago no firmamento. o vento da poesia me conduz além de mimo sol me acende estrelas me suportam Odisseu nos subúrbios da galáxia. amor é o que me sabe e o que me sobra outro castelo que naufraga como tantos que a força do meu sonho quis transformar em catedrais. ilusões? ainda me restam duas dúzias. conspirações de amor, talvez não mais.
Mais Clara, Mais Crua De noite, na rua, em frente ao parque A minha solidão é sua Decerto sei que você vaga em qualquer parte Sob essa vaga lua De noite, na rua, em frente ao parque A minha solidão é sua Decerto sei que você vaga em qualquer parte Sob essa vaga lua A noite esconde as cicatrizes Esconde as carícias e os maltratos A noite esconde as cicatrizes Esconde as carícias e os maltratos De noite alguém decerto lhe ampara Por onde hoje você anda Mas sem olhar sua ciranda louca Daquele jeito que lhe desmascara De noite alguém decerto lhe ampara Por onde hoje você anda Mas sem olhar sua ciranda louca Daquele jeito que lhe desmascara A noite esconde as cicatrizes Esconde as carícias e os maltratos A noite esconde as cicatrizes Esconde as carícias e os maltratos Agora, bêbada, você estremece Como se ainda não soubesse Em frente à porta desse bar Em que embarca sob essa vaga lua E a luz da lua apura a nitidez da marca Mais nua, mais clara, mais crua
quase soneto cheio de si ó minha amada, canto em teu louvor como se fora nato noutras terras mais adestradas nos bailes do amor, em Franças, Alemanhas, Inglaterras; canto-te assim com tal engenho e arte que até Camões invejaria o fogo com que me ardo, outrora degredado entre mil musas lusas e andaluzas, e agora regressado aos seus brasis, ó minha ave, minha aventura e sobretudo minha pátria amada pra sempre idolatrada, salve, salve: o resto é mar, silêncio ou literatura
Olhos de ressaca minha deusa negra quando anoitece desce as escadas do apartamento e procura a estátua no centro da praça onde faz o ponto provisoriamente eu fico na cama pensando na vida e quando me canso abro a janela enxergando o porto e suas luzes foscas o meu coração se queixa amargamente penso na morena do andar de baixo e no meu destino cego, sufocado nesse edifício sórdido & sombrio sempre mal e mal vivendo de favores e a minha deusa corre os esgotos essa rede obscura sob as cidades desde que a noite é noite e o mundo é mundo senhora das águas dos encanamentos eu escuto o samba mais dolente & negro e a luz difusa que vem do inferninho no primeiro andar do prédio condenado brilha nos meus tristes olhos de ressaca e a minha deusa, a pantera do catre consagrada à fome e à fertilidade bebe o suor de um marinheiro turco e às vezes os olhos onde a lua eu recordo os laços na beira da cama percorrendo o álbum de fotografias e não me contendo enquanto me visto chego à janela e grito pra estátua se não fosse o espelho que me denuncia e a obrigação de guerras e batalhas eu me arvoraria a herói como você, meu caro pra fazer barulho e preservar os cabarés.
Quando você pára de esperar que as pessoas sejam perfeitas, pode gostar delas por quem elas são.
Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente igual a única coisa que não muda porque muda sempre quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio desta praia nesta tarde quantas palavras até esta palavra, esta
O medo da morte segue do medo da vida. Um homem que vive totalmente está preparado para morrer a qualquer momento.