“Talvez quem vê bem não sirva para sentir E não agrada por estar muito antes das maneiras. É preciso ter modos para todas as coisas, E cada coisa tem o seu modo, e o amor também. Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir. Amei, e não fui amado, o que só vi no fim, Porque não se é amado como se nasce mas como acontece. Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes, E eu continuo como era dantes, sozinho no campo. Como se tivesse estado de cabeça baixa, Penso isto, e fico de cabeça alta E o dourado sol seca a vontade de lágrimas que não posso deixar de ter. Como o campo é vasto e o amor interior. . . ! Olho, e esqueço, como seca onde foi água e nas árvores desfolha. Eu não sei falar porque estou a sentir. Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa, E a minha voz fala dela como se ela é que falasse. Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro, E a boca quando fala diz coisas que não só as palavras. Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.”
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Nota: Trecho adaptado de "O Guardador de Rebanhos", do livro "Poemas de Alberto Caeiro", de Fernando Pessoa (heterônimo Alberto Caeiro).
“O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos, Porque já não posso andar só.”