Veloz A noite cai E o hoje Já se esvai.
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Infância não é a partir do nascimento com certa idade para uma certa idade. A criança se torna um adulto, e esquece das coisas infantis. A infância é o reino onde ninguém morre.
Que lábios já beijei, esqueci quando e porquê, e que braços sob a minha cabeça até ser dia; a chuva alinha os fantasmas que rufam, suspirando, no espelho, respostas esperando, e no meu peito uma dor calma aninha rapazes que não lembro e a mim sozinha à meia-noite já não vêm chorando. No inverno a solitária árvore assim nem sabe que aves foram uma a uma, sabe os ramos mais mudos: nem sei quais amores vindos, idos, eu resuma, só sei que o verão cantou em mim breve momento e em mim não canta mais.
Minha vela queima dos dois lados, ela não vai durar a noite inteira, mas oh, meus amigos, ah, meus inimigos, que bela luz ela dá!
Não me conformo em ver baixarem à terra dura os corações amorosos, É assim, assim há de ser, pois assim tem sido desde tempos imemoriais: Partem para a treva os sábios e os encantadores. Coroados De louros e de lírios, partem; porém não me conformo com isso. Amantes, pensadores, misturados com a terra! Unificados com a triste, indistinta poeira. Um fragmento do que sentíeis, do que sabíeis, Uma fórmula, uma frase resta — porém o melhor se perdeu. As réplicas vivas, rápidas, o olhar sincero, o riso, o amor foram-se embora. Foram-se para alimento das rosas. Elegante, ondulosa é a flor. Perfumada é a flor. Eu sei. Porém não estou de acordo. Mais preciosa era a luz em vossos olhos do que todas as rosas do mundo. Vão baixando, baixando, baixando à escuridão do túmulo Suavemente, os belos, os carinhosos, os bons. Tranquilamente baixam os espirituosos, os engraçados, os valorosos. Eu sei. Porém não estou de acordo. E não me conformo. [Tradução de Carlos Drummond de Andrade, “Poesia Traduzida”, Editora Cosacnaify]
Eles dizem que quando você está sentindo falta de alguém, ele provavelmente está sentindo o mesmo, mas eu não acho possível você estar sentindo tanto a minha falta quanto eu estou sentindo a sua agora.
O amor não é tudo O amor não é tudo: nem carne nem bebida, nem é sono, lar da gente, nem a tábua lançada para quem se afunda e volta e afunda novamente. O amor não pode encher o pulmão forte, pôr osso no lugar, tratar humores, embora tantos dêem a mão à morte (enquanto o digo) só por desamores. Bem pode ser, na hora mais doída, ou da minha franqueza arrependida, buscando alívio à dor, seja capaz de vender teu amor por minha paz ou trocar-te a lembrança pelo pão. Bem pode ser que o faça. Acho que não.
O tempo não traz alívio; mentiram-me todos os que disseram que o tempo amenizaria a minha dor. Sinto sua falta no choro da chuva; Quero sua presença no recuar da maré. A velha neve escorre pela encosta de cada montanha, E as folhas de outono viram fumaça em cada caminho Mas o triste amor do passado deve permanecer o meu coração, e meus velhos pensamentos perduram. Há centenas de lugares aos quais receio ir - por estarem repletos de lembranças dele. E ao entrar com alívio em algum lugar tranquilo Onde seu pé nunca pisou, nem seu rosto brilhou. Eu digo: "Aqui não há nenhuma recordação dele!" E com isso paro, arrasada, e me lembro tanto dele.
"E se eu te amo na quarta, Não te amarei na quinta. Isso pode ser verdade. Porque você reclama? Te amei na quarta sim, e daí?"
Meu coração se alegra em boa companhia E melhores amigos não terá, Mas não existe um trem no qual eu não iria, Aonde quer que ele vá.
Onde você ficava há um buraco no mundo, que me vejo sempre contornando durante o dia e caindo durante a noite. Sinto terrivelmente a sua falta.