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SER E NÃO SER Este ser e não ser que vive em mim Inacessível ao meu pensamento, No divagar meu mundo interior Subsistindo em mim independente. Negando-me os meus conhecimentos Diluídos no espaço e no tempo E o pouco que consigo recolher Vem brotando dos meus entendimentos. Escapando à forma do absoluto Povoando o vácuo de minha visão, Daquela incerteza de que estou certo. Potência regendo este dinamismo Do efeito que produz toda esta causa, Do ser que acorda em mim quando adormeço.
CRUCIFICADO O teu sorriso meigo e delicado, Com que me brindaste naquele dia, Foi toda causa do meu triste estado, Desta minha torturante agonia.
IRA Surgiu do leito do rio sem margens Cantando a serenata do silêncio, Do mar de desejos que a pele esconde, Trazia sal no corpo inviolável. Banhando-se no sol da estranha tarde Cabelo aos pés mulher completamente, Tatuou nas retinas dos meus olhos, A forma perfeita da tez morena. Com a lâmina dos raios penetrantes, Arando fortemente as minhas carnes, Espalhou sementes de dor e espanto. Deixando-me abraçado à sua sombra, Desceu no hálito da boca da argila E, ali, adormeceu profundamente.
O pássaro de barro da saudade Revoando no aro dos meus olhos Repousou nos meus dedos de silêncio Partindo para as terras ignotas. Divaguei nos roteiros do amanhã (Quilhas cortando o ventre do espaço Rasparam os recifes das quimeras Encalhando nas rochas das lembranças). E aquela argila diluída em sombras Incensando o meu templo de memórias Nas alvoradas dos meus sofrimentos. Na grande solidão do inatingível Ancorei o coração num mar de lágrimas E adormeci num inferno entre dois céus.