Uma espécie de perda Usamos a dois: estações do ano, livros e uma música. As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama. Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos. Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos. E estendemos sempre a mão. Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões. Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama. Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis, idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada, (– o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um aponta- mento) sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama. De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável. Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos. Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa. A campainha da porta era o alarme da minha alegria. Não te perdi a ti, perdi o mundo.