Mais frases de David Mourão-Ferreira!

Penélope Mais do que um sonho: comoção! Sinto-me tonto, enternecido, quando, de noite, as minhas mãos são o teu único vestido. E recompões com essa veste, que eu, sem saber, tinha tecido, todo o pudor que desfizeste como uma teia sem sentido; todo o pudor que desfizeste a meu pedido. Mas nesse manto que desfias, e que depois voltas a pôr, eu reconheço os melhores dias do nosso amor.

Por David Mourão-Ferreira

A praia abandonada recomeça logo que o mar se vai, a desejá-lo: é como o nosso amor, somente embalo enquanto não é mais que uma promessa... Mas se na praia a onda se espedaça, há logo nostalgia duma flor que ali devia estar para compor a vaga em seu rumor de fim de raça. Bruscos e doloridos, refulgimos no silêncio de morte que nos tolhe, como entre o mar e a praia um longo molhe de súbito surgido à flor dos limos. E deste amor difícil só nasceu desencanto na curva do teu céu.

Por David Mourão-Ferreira

E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites não dos meses lá no fundo dos copos encontramos E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se evolam tantos anos.

Por David Mourão-Ferreira

Nós temos cinco sentidos: são dois pares e meio de asas. - Como quereis o equilíbrio?

Por David Mourão-Ferreira

Primavera Todo o amor que nos prendera como se fora de cera se quebrava e desfazia ai funesta primavera quem me dera, quem nos dera ter morrido nesse dia E condenaram-me a tanto viver comigo meu pranto viver, viver e sem ti vivendo sem no entanto eu me esquecer desse encanto que nesse dia perdi Pão duro da solidão é somente o que nos dão o que nos dão a comer que importa que o coração diga que sim ou que não se continua a viver Todo o amor que nos prendera se quebrara e desfizera em pavor se convertia ninguém fale em primavera quem me dera, quem nos dera ter morrido nesse dia

Por David Mourão-Ferreira