Mais frases de Alice Sant'Anna!

um enorme rabo de baleia cruzaria a sala nesse momento sem barulho algum o bicho afundaria nas tábuas corridas e sumiria sem que percebêssemos no sofá a falta de assunto o que eu queria mas não te conto é abraçar a baleia mergulhar com ela sinto um tédio pavoroso desses dias de água parada acumulando mosquito apesar da agitação dos dias da exaustão dos dias o corpo que chega exausto em casa com a mão esticada em busca de um copo d’água a urgência de seguir para uma terça ou quarta boia e a vontade é de abraçar um enorme rabo de baleia seguir com ela

Por Alice Sant'Anna

esses dias de tédio em que se tem tempo – tempo só se arranja quando não se tem quando sobra desse jeito a gente repete os assuntos o ônibus chega rápido e os trajetos ficam curtos – de repente readaptar-se à própria casa como foi lá? bom rever os gigantes, os mínimos dedicar a eles igual dose de carinho ou indiferença usar as roupas que ficaram meses dobradas no armário com cheiro de sachê nessas tardes sem compromisso esticadas com rolo de macarrão tudo é longo nada dura

Por Alice Sant'Anna

falamos sobre o percurso até o fracasso ou sobre como falar em fracasso talvez já seja um passo adiante um passo adiante do fracasso o passo não sei bem em que direção

Por Alice Sant'Anna

quando faltou luz ficou aquele breu e eu com as mãos tremendo morta de medo de tudo se iluminar de repente

Por Alice Sant'Anna

ela come tangerina com centenas de dedos meditativos empenhados na função de descascar, separar um gomo do outro mas não mastiga, empurra com a língua até a pele descosturar feito tecido ou papel e romper em suco depois caminha pelos quartos acaricia os cabelos das bonecas muda a posição dos objetos desliza dedos pelas paredes até que cada canto da casa cheire como os dias de verão

Por Alice Sant'Anna

dentro do apartamento a janela sustenta a paisagem. me aproximo, apóio os braços: todo o mundo desmedido em minha frente. mas nada que eu possa segurar, reter. nem mesmo o perfume dessas tardes sem perfume, nem um bibelô para colecionar na estante como fazem as avós que não medem cuidados com a porcelana

Por Alice Sant'Anna