Mais frases de Victor Motta!

Lembranças Campeiras No final da noite fria, o vento corta, cortando a pele queimada, com cheiro de suor e terra. O sol espia no horizonte e clareia o dia. No chão, o fogo dança e espreita por entre toras. Na trempe, a água esquenta pra fazer o mate dessas horas. No espeto, a carne cheira enchendo o ar das narinas rudes e geladas. A mão que sova a erva aguarda a água quente pra servir à roda, com rostos marcados, de boca em boca, sorrindo ao dia que nasce nas coxilhas. No pampa guasca é mais um dia de um conto gaúcho.

Por Victor Motta

Lembranças Lembranças são crianças, são momentos, São praças, ruas, brincadeiras. São nomes, rostos, pessoas; São encontros e desencontros. São risos, alegrias, são dores. Um forte perfume de jasmim Da casa vizinha de grades verdes, Que ficou marcado para sempre. São gatos, cachorros, são cavalos. São subidas em muitas árvores, São mangas, abacaxis, são laranjas. São a primeira escola, a professora. São lembranças, são descobertas, São o amor que nasceu medroso. São um primeiro beijo, roubado. São as vitórias, são derrotas; Conquistas e frustações, são medos. Lembranças são o primeiro sexo, Sem graça, desajeitado e rápido. São as descobertas a dois, São ganhos, são perdas. São os sonhos e os pesadelos. São a vida, são a morte, Saudades dos que foram. São gostos, músicas e odores. São caminhos e descaminhos, São gritos e são silêncios. São o tudo, são o nada. São início sem o fim.

Por Victor Motta

ENGANOS Mergulhei no passado tentando compreender o presente de uma vida e descobrir em tantos enganos a verdade escondida nas mentiras. Em que dobra do tempo vivido ela ficou perdida; oculta nas sombras, tantas vezes negada ou transformada. O tempo partilhado com o nada. O prazer sofrido, sem o gozo do ideal imaginado; perdido. A mudança rápida de amores, deixou a mágoa do vazio; e, por não ser o amor verdade, fiquei sozinho, sem compreender o destino cruel que nos leva a viver tudo o que não é.

Por Victor Motta

Dúvidas Que valemos nós Em termos do absoluto Ou mesmo do relativo? Que valemos nós Para nós mesmos E para os outros? Que papéis representamos Na vertigem de rostos, Anônimos e frios, Que se cruzam Em paralelas Pelas ruas Das grandes cidades? Como caminhar sozinhos Em mil encontros? Como encontrar Sem nos conhecermos? Por que multiplicar temores Somando mágoas, Sem dividir ternuras? Qual a resultante Das forças solitárias? Onde estará o foco Das lentes divergentes Que não nos vêem? Como medir o calor Que se trocou em vão? Quando se encherá de afeto O coração que sangra? Quando se cruzarão Os caminhos opostos? Dúvidas, Dúvidas que me acompanham Por longos anos de procura Sem respostas!

Por Victor Motta

Longa Noite No espelho da vida revi mil rostos, velhos, cansados, perdidos em passados distantes. Em meu espanto, percebi também quem fui, pois na luz que refletia finalmente eu vi o tempo que passara. rápido, implacável, irônico. pedaços de mim formavam outras fisionomias que não eram mais como um dia foram. E, em minha mente lutei por descobrir vestígios de outrora. em vão!

Por Victor Motta

Caminhada Entre palavras, Murmúrios, Entre silêncios E mentiras… Entre amores, desilusões E iras… Segue a vida-busca A buscar a vida. Nas ruínas De antigos castelos, Derrubados Ao longo dos caminhos; Dia-após-dia Ano-após-ano. No cerrar do pano Que marca o fim De mais um ato, Sem aplausos, Sem consagrações, Sem esperanças. E eu parto Mais uma vez, Com um pouco menos De mim, Com um pouco menos De tudo; Mudo, Na correnteza humana, Insana! Na força Que meu corpo arrasta, O coração dilacera, Devasta a mente Na espera De um outro dia Igual. Caravana infernal De solitários, Homens-máquinas, Sem razão, Sem fim, A carregar mil cruzes Sem nexo, Sob as luzes Do grande palco. Mas, eu sigo, Perplexo, No andar Dos que apenas andam, Sem destino. E, atrás de mim, Eu sinto o ranger De um infinito Que caminha, Que ri E chora. Mas, eu sei, Agora Que já sem rosto Esse infinito, Como a própria vida, Também é morto.

Por Victor Motta

Tarde, noite de natal A tristeza branca A derramar, De novo, os tons (tão bons…), Tristes e brancos, Irmanados, Irmanando, Num pôr de sóis Sagrados e únicos, Os contornos perdidos Que brotam do povo Esperançado…. Crédulo,sob um arco-iris De bondade branca E triste. Tudo é calmaria Nessa tarde de sol Que desce atrás Do mar de dezembro. Ilusão fugáz, De amor, De paz, Comprimida em doze Meses de ânseios E dúvidas; Em eternos veios De dores reprimidas. Aqui, sentado, Parado e alheio, Com esse sol A me chamar pro mar… Não consigo me afastar Dos sons Que me alcançam No fundo da alma, A alma triste Desse natal que chegou, Trazendo um mundo Que busca outros mundos Sem conhercer-se a si próprio. No ventre dilatado De uma criança qualquer Está o espanto Do século dividido. No pranto da mãe Que chora mais um anjo Está o amargo Das injustiças. E o mundo busca Outros mundos, Sem volver um só Olhar de piedade. Que engenhosidade! A lua a seus pés Sob a árvore enfeitada De estrelas; Que são as gotas Rolando das faces Feias e cruas Que sem compreendê-las Não aplaudem, Não riem, Na mesmice de seus dias Iguais. Hoje, é natal, é paz, é bondade, é dádiva, Mas, em sua tristeza Ignorante, Como poderão Participar De nossa alegria, De nossa vitória? Debaixo de todas as águas Salgadas Desse mar, Fica o fim de uma história Enterrada e esquecida, e é natal!

Por Victor Motta

A dor do poeta O poeta é triste por natureza, mas na poesia encontra o conforto como o navio que chega ao porto levado ao sabor da correnteza. E se da vida sente a tristeza de um amor que já está morto, cultiva a flor de um mais belo horto onde a poesia reina com beleza. Encontra a vida na bela forma da rima fértil do verso apaixonado e, com a tristeza da vida se conforma. Não sente mais o fel de seu passado até que a vida de novo o transforma num homem só amargurado…

Por Victor Motta

Essência cósmica Sou como o vento forte, ruidoso, furacão; às vezes brisa, calmaria. Sigo à frente meu momento, passageiro e condutor. Noites escuras, lindos dias. Passos largos, riso franco. Explosão em cores e dor, vermelhos, rubros, raivas; azuis, argentos, carícias. Assobio nas copas e nas taipas. Assobrado, assobrador. Sigo o rumo das correntes, que me levam longe e perto. Subo e desço por vertentes, sem paradas, sem descanso; ora em gritos, ora manso, mas sempre sou eu, essência, daquilo que represento, em vidas que fui, e em vidas que serei.

Por Victor Motta

REFLEXÕES DE UM ADEUS Agora, sentado, ouvindo apenas o ruído do silêncio, parado, eu penso em nós. Vem vindo do fundo, gritante, alarmante, a ansiedade do tempo passado preenchendo do nada o vazio de dois mundos. Somos duas pontas de flexas, disparadas do infinito, que não se encontrarão. Um grito de alarme cresce na garganta e espanta no vôo, a felicidade que em vão tenta o pouso em minha alma angustiada. Somos dois que marcham ao longo, sem cruzamentos, nem encontros. Tontos, procuramos nos dar as mãos através o nevoeiro do tempo. Ilusão temerária de sermos um, quando seremos, eternamente dois. Pois, não percebes? Teu mundo é formado de outras cores. Consulto o silêncio, tal fora o relógio da vida, e vejo nos ponteiros que não se tocam nossa própria tentativa do ser uno. Nessa ilusão míope não vemos que passamos um pelo outro, sem nos tocarmos, como os ponteiros que marcam a vida, perdida.

Por Victor Motta