Mais frases de Ítalo Diblasi!

Havia crescido e era definitivo: já tão banal o forte gosto da aguardente de velhos tempos coisa alguma nem o corpo também a pele manifesta seu devir extingue-se, camaleoa de máscara em máscara o bruto corpo da árvore castigada ao cair das folhas. Cresci perdi castelos e pudores perdi sorrisos, sim perdi favores deixei aos sóbrios a vitória sobre o tempo ganhei silêncios & temores ganhei revolta quando mais queria calma ganhei suor e não o pão ganhei o Ar a plenitude do hemisfério a anarquia nos trópicos ganhei perdi ganhei & perdi uma metralhadora de espantos em eterno ir e vir

Por Ítalo Diblasi

Sonhei com uma cidade submersa que desconhecia luz e era habitada por estranhas criaturas fluorescentes que sentiam fome e amor, mas sobretudo fome, e adornavam as almas com cantos de guerra e silêncios rompidos à chibata mas havia alma e isso bastava porque na superfície nós não tínhamos nem isso, e o sonho desdobrava-se num turbilhão de imagens em que eu via o amor ser inventado e escurecer e as trevas eram tudo e eu dormia e desesperadamente sabia que ninguém viria coroar minha agonia porque acordávamos todos os dias e quem quer que quisesse viver teria de saber que aqui não se sonha, não, não se sonha sem custo e o meu custo, tão doce e terrível, era a loucura daquela cidade que já desaparecia outra vez e a insuportável luz volvia com a realidade e tudo o que se podia fazer era secar os olhos e observar o sol dormir atrás do mundo

Por Ítalo Diblasi

Poema azul eu reconheço a distância calada de um coração essa distância-oceano que é a distância dos anos, dos autos, dos atos de fé do labirinto tecido à fina seda do sonho que sonda o poente eu reconheço a distância forçada do exílio do suicídio coroado nas laudas do tempo, do vento, do corpo que amei eu atravessei o grito dos seus olhos quando até a palavra tempo cessou e o relâmpago profetizou, na escuridão, o retorno e você diz que eu fiquei mais azul

Por Ítalo Diblasi

Melancolinear Tenho os dentes amarelados e sempre que posso mantenho-os todos na boca fechada sorrindo sem eles estilo contido e me envaideço de minha proeza porque não sorrir nunca matou ninguém

Por Ítalo Diblasi

você não acreditaria que eu sigo mentindo e que agora as mentiras são quase bonitas apenas porque morremos: a beleza. apenas porque morremos o sol voltará amanhã exigindo que ao menos um de nós tente de novo você não acreditaria nas coisas que tenho tentado provar – a libido, o corpo, o frio (sobretudo o frio) você não acreditaria que apenas porque morremos as coisas ainda brilham que apenas porque morremos ainda somos necessários

Por Ítalo Diblasi

Eros manda avisar que não habita parlamento Que o amor não é uma social-democracia Que onde dois são dois a discórdia faz ninho Que o livre-arbítrio é a desculpa da apatia Que o tirano e o escravo são gêmeos siameses

Por Ítalo Diblasi