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Meus pais pareciam tomar a infância como uma etapa preparatória em que devem ser corrigidos todos os defeitos de fabricação com que chegamos ao mundo e levavam essa tarefa seriamente.
Talvez nisso esteja a verdadeira conservação da espécie, em perpetuar até a última geração de humanos as neuroses de nossos antepassados, as feridas que vamos herdando como uma segunda carga genética.
Os comportamentos adquiridos durante a infância nos acompanham sempre, e mesmo que tenhamos conseguido, à força de uma grande vontade, mantê-los cercados, encolhidos em um lugar tenebroso da memória, quando menos esperamos nos saltam na cara como gatos enfurecidos.
O silêncio, como o sal, é de uma leveza apenas aparente: na realidade, se alguém deixa que o tempo o umedeça, começa a pesar como uma espécie de bigorna.