Frases e palavras de impacto de Fernando Echevarría!

AMOR À VISTA Entras como um punhal até à minha vida. Rasgas de estrelas e de sal a carne da ferida. Instala-te nas minas. Dinamita e devora. Porque quem assassinas é um monstro de lágrimas que adora. Dá-me um beijo ou a morte. Anda. Avança. Deixa lá a esperança para quem a suporte. Mas o mar e os montes... isso, sim. Não te amedrontes. Atira-os sobre mim. Atira-os de espada. Porque ficas vencida ou desta minha vida não fica nada. Mar e montes teus beijos, meu amor, sobre os meus férreos dentes. Mar e montes esperados com terror de que te ausentes. Mar e montes teus beijos, meu amor!...

Por Fernando Echevarría

Felizes. Porque, ao fundo de si mesmos, cheios andam de quanto vão pensando. E, disso cheios, nada mais sabem. Dão para aquele lado onde o mundo acabou, mas resta o eco de o haverem pensado até ao cabo e irem agora criar o movimento que subsiste no tempo de o mundo ainda estar a ser criado. Por isso são felizes. Foram sendo até, perdido o tempo, só em memória o estarem habitando.

Por Fernando Echevarría

Os vivos ouvem poucamente. As plantas, como o elemento aquático domina, são dadas à conversa. A menor brisa abala a urna de concórdia estremecida que, assim, sensível, se derrama e é solidão solícita. Os vivos não ouvem nada. Mas, havendo acedido a essa malícia de experiência cândida, os mortos deixam que o ouvido siga o fluvial diálogo das plantas umas com outras e todas com a brisa. Melhor ainda. Quando, nas noites cálidas, as plantas se sentem mais sozinhas, os mortos brincam à imitação das águas inventando palavras de consonâncias líquidas. E esse amoroso cuidado de palavras a urna de concórdia vegetal espevita até que, a horas altas, a noite, os mortos e as plantas caiam no sono duma luz solícita.

Por Fernando Echevarría

Se em nós a solidão viver sozinha, sem que nada em nós próprios a perturbe, cada figura passará rainha na antiguidade súbita da urbe. Um acento de pena irá na linha vincar a eternidade de figura a um rosto que quase só caminha para dentro de o vermos pela pura substância em si que vive a solidão dentro de nós. E sendo nós só margem do seu reino de ver por onde vão as figuras passando na paisagem de um antigo fulgor de coração aonde passam desde sempre. E agem.

Por Fernando Echevarría

O TEMPO VIVE O tempo vive, quando os homens, nele, se esquecem de si mesmos, ficando, embora, a contemplar o estreme reduto de estar sendo. O tempo vive a refrescar a sede dos animais e do vento, quando a estrutura estremece a dura escuridão que, desde dentro, irrompe. E fica com o uivo agreste espantando o seu estrondo de silêncio.

Por Fernando Echevarría

A solidão é sempre fundamento da liberdade. Mas também do espaço por onde se desenvolve o alargar do tempo à volta da atenção estrita do acto. Húmus, e alma, é a solidão. E vento, quando da imóvel solenidade clama o mudo susto do grito, ainda suspenso do nome que vai ser sua prisão pensada. A menos que esse nome seja estremecimento — fruto de solidão compenetrada que, por dentro da sombra, nomeia o movimento de cada corpo entrando por sua luz sagrada.

Por Fernando Echevarría

Com a altura da idade a casa se acrescenta. Não é que aumente a quantidade ao espaço. Mas, sendo mais longínquos, o desapego pensa maior distância quando se fica a olhá-lo. Ou, se quiserem, uma realeza se instala à volta dessa altura de anos, de forma a que os objectos apareçam na luz de quase já nem os amarmos. Então a casa distende-se na intensa inteligência de estarmos a ver as coisas amarem-se a si mesmas. Ou com a forma a difundir seu espaço.

Por Fernando Echevarría

Lentos nos fomos esquecendo. Quando o tempo da velhice nos foi vindo a tez apareceu amorenada de anos e afeita ao espírito. A lavoura sabia aos nossos passos. Até os desperdícios iluminavam debilmente o armário e a penumbra dos rincões escritos. Mas nós só estávamos em nos havermos esquecido. Ou, às vezes, a aura do trabalho quase fazia com que na mesa o sítio aparecesse coroado de anos sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.

Por Fernando Echevarría

A velhice é um vento que nos toma no seu halo feliz de ensombramento. E em nós depõe do que se deu à obra somente o modo de não sentir o tempo, senão no ritmo interior de a sombra passar à transparência do momento. Mas um momento de que baniram horas o hábito e o jeito de estar vendo para muito mais longe. Para de onde a obra surde. E a velhice nos ilumina o vento.

Por Fernando Echevarría