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Amor Se você tivesse todas as cartas que eu escrevi Você ia entender Porque tô assim Tão longe de mim, tão longe de mim
Por Igor Von AdamovichNão sei onde começo, Nem onde acabo. E outra Dúvida se acrescenta: Quando eu morrer Qual dos meus eus estará Sendo enterrado comigo? E os outros, os que não me Seguirem, continuarão Vagando por ai, continuando A expor o meu tormento? Se eu te disse que nasci Um só e que morri Vários, foi porque o dom Da vida se dispersou Em mim, fazendo de um Só poeta possível, um Deserto permeado. Só os Veros poetas nascem vários E morrem um só, Eupalinos!
Por Antônio Rangel BandeiraSempre seja positivo, mesmo quando as coisas são negativas. Porque um negativo mais um positivo é bem melhor do que nada.
Por Departamento de Conspirações (série)Não importava se tinha razão, devia me calar. No meu tempo, ser educado era ficar em silêncio. Na mesa, não podia emitir som que não fosse da natureza do garfo e da faca. Criança aceitava, não falava. Como um bicho doméstico, um galo, um cachorro, um gato, um canário belga. Encabulava quando raspava a louça, arranhava as rodas ao estacionar no meio-fio do prato. Meu pai falava sem parar dos negócios, dos vizinhos, do futebol e eu escutava com continência e louvor. Nunca me passou pelos ouvidos nenhuma pergunta inteligente para fazer, até porque as perguntas inteligentes surgem das bobagens e não corria riscos. Se as conversas tivessem sido gravadas na época, descobriria que não apareci na própria infância. Entrava com um "obrigado" e saía no "com licença". Não questionava os hábitos, preocupado em me ver livre o mais rápido possível daquela cena. Não sabia como viver para me sentir morto. Não sabia como morrer para me sentir vivo. Meus bolsos cheios de bolas de gude para acompanhar as mãos. Os bolsos do meu pai cheios de chaves para desafiar as mãos. Os bolsos de minha mãe cheios de pedras do terço para esquecer as mãos. A sobremesa era sagu ou arroz de leite, que comia com vagar e ódio, já que consistia na mesma merenda da escola. Passava o dia comendo sagu ou arroz de leite. A canela em cima do doce me arrepiava de careta, emburricava a respiração. Me censurava antes da censura, me proibia antes da negação, me cavava antes de ser enterrado. Pensativo como quem se penteia no espelho. Prestativo como quem tem culpa por crescer. Nas saídas em família, permanecia igualmente calado, omisso, aceitando que as pessoas secassem seus dedos no meu rosto em cada encontro. Quando recebia um elogio público de comportado, o pai sorria, a mãe sorria, e bem que tentava sorrir, mas os dentes eram de leite e logo cairiam. Nunca levantei a voz. Falava para dentro, com a cabeça inclinada de cavalo cansado. Tinha serenidade porque não encontrava outro sentimento para colocar em seu lugar. Não havia estômago para chegar ao fim da esperança. Não estava escuro para me defender com vela, muito menos claro para procurar sombras. Conhecia de cor o ato de contrição, apesar da dificuldade de inventar pecados. A humildade lembrava covardia, o que explica minha vontade insana de fazer calar esse tempo, o meu tempo de camisa fechada até o último botão.
Por Fabrício CarpinejarJoão, JO, 8:26, <J>Muitas coisas tenho para falar e julgar a respeito de vocês. Porém aquele que me enviou é verdadeiro, de modo que as coisas que dele ouvi, essas digo ao mundo.</J>
Por João, Novo TestamentoLembre-se de mais uma coisa: tipograficamente falando, o mais simples é sempre o melhor.
Por Giambattista BodoniAutobiografia EITO que ressoa no meu sangue sangue do meu bisavô pinga de tua foice foice da tua violação ainda corta o grito de minha avó LEITO de sangue negro emudecido no espanto clamor de tragédia não esquecida crime não punido nem perdoado queimam minhas entranhas PEITO pesado ao peso da madrugada de chumbo orvalho de fel amargo orvalhando os passos de minha mãe na oferta compulsória do seu peito PLEITO perdido nos desvãos de um mundo estrangeiro libra… escudo… dólar… mil-réis Franca adormecida às serenatas de meu pai sob cujo céu minha esperança teceu minha adolescência feneceu e minha revolta cresceu CONCEITO amadurecido e assumido emancipado coração ao vento não é o mesmo crescer lento que ascende das raízes ao fruto violento PRECONCEITO esmagado no feito destruído no conceito eito ardente desfeito ao leite do amor perfeito sem pleito eleito ao peito da teimosa esperança em que me deito
Por Abdias do Nascimento